terça-feira, 20 de novembro de 2007

ARTIGO - Dia da Consciência Negra

Dia da Consciência Negra

Carlos Gomes*

Nasci na Bahia, negro, num Estado onde há muitos anos, pessoas como eu já foram despejadas para trabalhar em regime de escravidão.

Sem bagagem, sem dignidade e com muita resignação, um povo sofrido saiu dos porões dos navios para construir, numa terra desconhecida, o país em que vivemos.

Os negros contribuíram de maneira decisiva para o desenvolvimento de nosso país, mas a história nos mostra que ficaram à mercê da compaixão e da boa vontade dos governantes.

Aqui no Rio Grande do Sul, Estado que de maneira tão terna e hospitaleira me acolheu, alguns gaúchos me chamam de moreno. Na minha documentação, eu leio que sou pardo.

Afinal, o que é isso?

Sou negro na minha cor, no meu cabelo e na minha trajetória. Cresci num país onde, mesmo sendo a maior parte da população negra, ainda somos minoria nas universidades e minoria no mercado de trabalho formal.

Não somos os mais ricos, nem os melhor nutridos, tampouco os mais estudados.

Vivemos num Brasil onde, infelizmente, os negros não saíram dos porões. Num Brasil onde o quesito “boa apresentação” é usado para nos eliminar na entrevista de emprego. Por quê? Será que não somos apresentáveis?

Infelizmente, vivemos num país onde muitas pessoas atravessam a rua ao ver alguém com um tom de pele mais escura vindo ao seu encontro.

Eu já senti na pele o preconceito que a maioria dos negros já sentiram nas ruas, nos supermercados, nas escolas, no trabalho. Eu sei o que é ser olhado de lado, o que é sofrer acusações e desconfianças gratuitas, eu sei o que são os maus-tratos.

E eu digo que nós sentimos na pele, porque é da pele que vem a principal causa da exclusão que discrimina os negros desde o Império: a nossa cor.

Porém, é preciso dizer que muito já foi conquistado: presenciamos avanços no ensino formal que estão permitindo a conscientização da população desde a infância, além do sistema de cotas nas universidades. Também é possível ver, uma vez ou outra, apresentadores de TV, modelos em capa de revista e atores negros fazendo papéis de vencedores na ficção.

Por que não na realidade, então?

Confesso que, quando cheguei à terra dos gaúchos, fui surpreendido ao ver tanta gente como eu. Isso porque, por esse Brasil afora, a mídia sempre mostrou o sul do país como um lugar povoado por loiros de olhos claros.

Foi só então que fiquei sabendo que o Rio Grande do Sul apresenta expressiva população negra, sendo esta uma das responsáveis pela formação econômica, social e cultural do Estado.

Afirmo hoje que todos nós, negros na pele ou no coração, que trilhamos um caminho de dificuldades, não somos mais por isso, mas não somos menos. Somos capazes, somos necessários, somos importantes para um Brasil melhor.

*deputado estadual


Publicado no Correio do Povo de 20/11/07 - Editoria Opinião - Página 4

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